Em entrevista relativamente recente ao portal ZeroZero, Pimenta Machado, histórico presidente vitoriano, referiu-se assim a Raymond Goethals, provavelmente o treinador de maior renome que alguma vez orientou o Vitória e que por ele foi contratado em 1984: " - Foi uma loucura minha, hoje não fazia isso. O Goethals estava suspenso e não podia treinar, o Vitória tinha vindo de um campeonato mau com o Stessl e resolvi apostar num gajo com nome internacional. Arranjou-se o expediente de o Goethals ser delegado e o treinador ser o Manuel Machado."
Assim, apesar de não poder orientar a equipa desde o banco de suplentes, devido à referida suspensão por causa de um escândalo de corrupção ocorrido na Bélgica a envolver o Standard de Liege, que na altura era orientado pelo técnico, a verdade é que o Velho Feiticeiro, como era conhecido, tornar-se-ia treinador do Vitória para a época de 1984/85.
Porém, cedo entraria em rota de colisão com os responsáveis vitorianos, muito por culpa, também, de um arranque completamente falhado em que a equipa nas cinco primeiras partidas, apenas, triunfou perante o estreante no principal escalão, Vizela, tendo, inclusivamente, sido derrotada em casa pelo eterno rival por uma bola sem resposta.
Com os adeptos em ebulição, a questionarem a aposta num plantel demasiado jovem, baseado na equipa que dois anos antes se sagrara vice-campeã nacional de juvenis, com uma Assembleia-Geral extraordinária à porta em que se previa que Pimenta não iria estar presente por ir ao Brasil em busca de jogadores credenciados (dessa viagem, chegaria o inesquecível Roldão) e com os sócios a reforçarem que "não queremos que o presidente vá embora. O que queremos é que vá buscar jogadores", tudo parecia conjugar-se para o ano atribulado, de discussões múltiplas e de temores quanto ao êxito do exercício.
Ora, se o ambiente estava em efervescência, mais haveria de ficar com uma entrevista do treinador belga ao jornal A Gazeta dos Desportos, antes da partida no Estádio das Antas, frente ao FC Porto, que se antevia difícil. Aí, apesar da fase precoce da temporada, assumia que "não posso fazer milagres. O 7º ou 8º lugar já era muito bom."
A justificar essa frase que parecia comprometer a temporada quase logo no seu início, assumia que "quando tomei conta desta equipa, ela já não tinha Silvino, Barrinha, Eldon, Nivaldo, Amândio, os dois Murças e Flávio. Os que restam são: Jesus, Paquito, Gregório Freixo e Laureta, enquanto que Tozé não tem podido jogar."
Além do notório depauperar do conjunto, ainda existia a contratação de elementos incapazes de serem mais-valias, pois juntaram-se-lhes elementos provenientes da segunda divisão "... como Rui Vieira, Hilário, Russiano e Miguel, enquanto Valério transitou do Sp.Espinho, actualmente na divisão secundária, e os ex-juniores Lopes, Sérgio, Jorge Machado, Soeira e Viana, entre outros jovens."
Atendendo a estes elementos, Goethals iria mais além ao dizer que "tenho de lhes dizer como devem colocar-se e movimentar-se durante o jogo. Eles estão a aprender. Não me peçam milagres, porque eles não existem em futebol. Não nos peçam a Europa, porque com tanta gente nova e muita dela rotinada na segunda divisão, não se pode pensar em Europas. Não podemos fazer milagres."
Depois do raciocínio, viriam duas tiradas assassinas que deram a entender que o técnico belga não estaria a pensar ficar no Vitória, para além dessa temporada ao dizer que "Se tivéssemos gente experiente como o Braga ou o Boavista..." e "Se o Vitória ficar aqui, no sétimo ou no oitavo lugar, fico muito satisfeito com o meu trabalho." Por isso, advertia, que "... se temos um acidente, se dois ou três jogadores dos experiente se magoa... poder ser o diabo."
E, deste modo, a oito meses do final do campeonato, terá traçado o seu destino longe de Guimarães, confirmando o que Pimenta haveria de dizer muitos anos depois: a sua contratação não tivera o sucesso pretendido, ainda que tivesse praticamente acertado na posição que a equipa iria ocupar no final da prova, ao conquistar o nono lugar.
