O Vitória sempre desencadeou intensas paixões. Principalmente, desde o surgimento da Amorosa, mas com especial realce após as obras de beneficiação que o velho recinto mereceu após o regresso dos Conquistadores à Primeira Divisão.
Na verdade, como já aqui escrevemos, a nova bancada foi decisiva para que muitas senhoras, mas acima de tudo, crianças de idade muito pueril, sentissem uma atraente fascínio pelas cores vitorianas, pelos ídolos que, durante a semana, os nomes ressoavam-lhes ouvidos, pululavam nos seus imaginário.
Porém, em tempos provavelmente mais difíceis do que os de hoje e sem existir a tradição de conjugar o registo de nascimento na Conservatória do Registo Civil com o de associado do clube do Rei como hoje é praxe, havia a ideia de que "um dia que sejas homem e ganhes para ti serás sócio."
Só que, contudo, o que faltava em dinheiro sobrava em paixão. Assim, para transpor os portões da Amorosa tinha que existir engenho, astúcia. E se, para alguns, a ida pela mão do pai ou do avô era uma escolha óbvia, para outros que os ascendentes directos não sentiam amor pelo desporto-rei tinha de existir um estratagema: o do tio.
Na verdade, bastará falar com muitos daqueles que viveram as inesquecíveis décadas de 60 ou de 70 para os fazer sorrir com uma deliciosa expressão: "Oh tio, leve-me consigo." Era assim, que naqueles Domingos de futebol na Amorosa, que muitos meninos, sem hipótese de entrarem no estádio e sem qualquer adulto consigo, tornavam-se sobrinhos de um desconhecido que os pudesse introduzir no recinto vitoriano, de modo a ser absorvidos pela paixão vitoriana. Os tios esses, mudavam de jogo para jogo, consoante quem estivesse na fila.
Tal seria assim quase até à década de 90, quando a reformulação das entradas e o posterior sistema de torniquetes acabou com esse súbito vínculo familiar...contudo, sem jamais sair da memória de quem naqueles dias arranjou novos vínculos familiares, pelo Vitória!
