Estávamos no final da temporada de 1961/62...
Fora uma época atribulada, com o Vitória a salvar-se in extremis da descida, graças a um miraculoso golo de Augusto Silva no último desafio frente ao FC Porto.
Mas, os Conquistadores acabariam sem treinador, depois da partida de Artur Quaresma, que fora o herói da histórica conquista do primeiro quarto lugar da sua história mas que, rapidamente, tornou-se alvo dos sócios após ter encostado uma das estrelas da equipa, o brasileiro Ernesto.
A piorar o ramalhete, solidário com o treinador (outros tempos), o presidente, Casimiro Coelho Lima, haveria de demitir-se, levando a que se tentasse eleger novos corpos directivo. Como escreveu o Notícias de Guimarães de 17 de Junho de 1962, num artigo de Hélder Rocha cuja fotografia ilustra estas linhas, "realizaram-se Assembleias Gerais, reuniu-se o Conselho Geral do clube, formaram-se Comissões", mas o problema mantinha-se: o Vitória não tinha direcção e Casimiro Coelho Lima teve mesmo de continuar até ao final da temporada.
Teve, assim, que ser constituída uma Comissão Administrativa, liderada por Hélder Rocha, que nas linhas consultadas justificava o sucedido, coadjuvado pelos "restantes membros da Gerência eleita para 1961 e que nunca renunciaram."
Ficava o clube com uma comissão transitória, esperando que alguém assumisse. Não seria, contudo, tarefa fácil e seriam dadas provas de inelutável vitoriano. Com efeito, "a nau vitoriana não podia navegar à deriva, sem ninguém a governá-la. Aguentamos tudo por afeição ao Clube e nada mais. Não somos daqueles que nos pomos em bicos de pés para que nos vejam."
Mas, essa missão foi tudo menos fácil. Com a equipa com dificuldades em somar os pontos necessários, "muitas vezes pensamos em renunciar. Sobretudo, nos dias seguintes, onde a derrota era comentada como o prenúncio da derrocada irremediável. " Nesses momentos difíceis, "poucas atitudes de apoio recebemos..."
Contudo, como já escrevemos, o Vitória salvar-se-ia. Saindo de cara levantada e sem o ódio de terceiros, alertava-se para problemas da altura e que parecem tão presentes hoje. Com efeito, "existem no Vitória problemas inadiáveis a resolver. Temos jogadores namorados como a Imprensa divulga. (...) Às vezes, uma transferência pode resolver problemas. Porém, ao fazê-la, tem que se ter devidamente estudadas as consequências da lacuna provocada." Além disso, era preciso resolver a questão técnica, pois Rola, que fora jogador-treinador nos últimos jogos, iria abandonar o cargo.
Sem soluções palpáveis à vista, teria de ser usado um verdadeiro tratamento de choque. Assim, alertava-se que "saímos após o último jogo oficial da época, haja ou não quem nos substitua; não assumiremos mais quaisquer compromissos económicos para solver responsabilidades tomadas; não cederemos qualquer jogador seja a quem for, nem em contrapartida, diligenciaremos a aquisição de qualquer reforço; não tomaremos medidas quanto à futura orientação técnica...."
Por isso "compete aos vitorianos de boa vontade evitar as consequências da nossa resolução. Sairemos a olhos todos de frente, uma vez que deixamos o Vitória no lugar desejado de todos também. Quem quiser que nos venha substituir e que faça, pelo menos, tanto como nós..."
Tal necessidade seria reforçada por Fernando Roriz, no número seguinte do jornal referido, que reforçava que "para ninguém é novidade que a preparação de uma equipa de futebol não começa apenas quando os seus atletas, no início da temporada, descem ao campo em busca do apuro da preparação. Antes disso, mil e um pormenores de gabinete têm de ser cuidados a tempo e horas. Ora no Vitória, todos estes pormenores estão, necessariamente, descurados, ao abandono."
Porém, seria deste modo, que o Vitória haveria de caminhar até Abril de 1963, altura em que Manuel Cardoso do Vale assumiu os destinos do clube. Mas, isso será outra história... no entanto, que se tirem ensinamentos do passado para o presente e para o futuro!

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