Um título que passou despercebido… e que diz muito sobre o futuro.
O atletismo do Vitória tem vindo, nos últimos tempos, a afirmar-se com resultados consistentes e sinais claros de crescimento. Como já aqui escrevemos, é uma modalidade que merece mais atenção, mais reconhecimento e, sobretudo, mais valorização.
Recentemente, no âmbito de outro trabalho, deparei-me com um feito que passou quase despercebido: o título nacional na 3.ª divisão do Campeonato Nacional de Clubes.
É verdade que uma 3.ª divisão — ainda que composta apenas por oito equipas — não é um patamar à altura da história e ambição do Vitória. Mas foi, também, a primeira vez que o clube encarou esta competição com verdadeira ambição, apresentando uma equipa com várias atletas já com nível de primeira divisão.
E isso faz toda a diferença!
Sara Ferreira é hoje um nome incontornável do universo vitoriano e não só. Atleta feminina do ano em Guimarães, recordista nacional em várias disciplinas, incluindo o triplo salto onde já superou marcas de Patrícia Mamona, é o rosto mais visível de uma geração que promete muito.
O campeonato estava inicialmente marcado para Pombal, no final de Janeiro, mas foi adiado devido à tempestade Kristine. Na semana seguinte, Sara — ainda sub-18 — lesionou-se. Tudo indicava que o objetivo da subida e até do título poderia cair por terra.
Mas não caiu.
Mesmo sem a sua principal referência, com atletas fora da sua posição habitual e até com uma desqualificação administrativa pelo caminho, a equipa não vacilou.
À entrada para a última prova, a estafeta 4x400 metros, o Vitória encontrava-se empatado no 2.º lugar. O cenário era simples: vencer significava garantir a subida.
Fizeram mais do que isso.
Venceram… e saltaram directamente para o 1.º lugar, conquistando um título que é, em todos os sentidos, histórico.
Em 13 disciplinas, as vitorianas somaram:
4 vitórias
3 segundos lugares
1 terceiro lugar
Mas mais impressionante do que os resultados foi a composição da equipa:
4 atletas sub-18
1 atleta sub-20
Das 3 seniores, uma formada no clube e apenas uma atleta estrangeira.
E ainda com a ausência de Sara Ferreira, também ela sub-18.
Isto não é acaso. É estratégia.
Olhou-se para dentro, identificou-se talento, e reforçou-se de forma cirúrgica apenas onde era necessário. Um equilíbrio raro entre formação e critério competitivo.
E isto levanta uma questão inevitável:
Não nos orgulha imenso o nosso percurso na liga 3 com uma equipa de génese de formação?
Imaginem vencer um título no futebol com uma equipa maioritariamente com juvenis?
Não foi uma "equipa de juvenis" o início dos anos dourados do United?
Mas talvez seja precisamente por haver menos recursos, menos exposição e menos ruído que aqui se consegue fazer melhor. Com mais critério. Com mais identidade. Com mais verdade.
Há trabalho de formação bem feito.
Há inteligência no reforço.
E há um título nacional conquistado.
E, mais importante do que isso, há um caminho.
E com continuidade… haverá muito mais para conquistar.
