Falar de Manuel Cardoso do Vale é aludirmos um homem que viveu a sua vida em prol do Vitória e, por isso, figura amplamente conhecida e aceite em todas os quadrantes do clube.
Assim, quando surgiu como solução para suceder à Junta Directiva que houvera governado os destinos vitorianos após a saída de Casimiro Coelho Lima, foi imediatamente merecedora de aplausos. No fundo, tratava-se de um homem que não se gabava (sem que ninguém, o tivesse visto) de ter se sempre acompanhado o Vitória. Ele vestira a camisola vitoriana na década de 30 enquanto jogador, tornando-se, assim, no primeiro jogador do clube a ser o seu presidente. Além disso, já retirado e integrado nas direcções, dava a cara junto dos empresários para angariar fundos para o clube.
Como noticiava o jornal Notícias de Guimarães de 14 de Abril de 1963, "Cardoso do Vale será o futuro presidente da direcção", ficando "resolvida a continuidade directiva do Vitória." Para tal suceder, muito contribuiu um jantar que decorreu no Restaurante Jordão, destinado a homenagear o antigo presidente da Câmara Municipal de Guimarães, José Maria de Castro Ferreira. Aí foi convencido a assumir o cargo, sendo que "foi como um reconhecimento de válidas dedicações vitorianas...", das quais se destacaram "Domingos Torcato Ribeiro de Almeida e Antero Henriques da Silva Júnior. A estes juntaram-se outros vitorianos, ainda, fizeram-se as diligências convenientes e a crise foi vencida."
Seria já em 14 de Julho de 1963, que nas páginas do mesmo jornal, falaria do seu programa, depois de ser descrito como "Homem do Vitória que o encontrou sempre na primeira linha das suas dedicações, Manuel Cardoso do Vale é, também, ao mesmo tempo, um homem do futebol, que começou por praticá-lo nos tempos em que um sujeito corria hora e meia no campo só pelo prazer de servir o seu Clube e que, portanto, sabendo como é lá dentro e como se comanda de fora, o que aprendeu em longos e laboriosos anos de serviço como Dirigente, bem dispensa que se lhe realcem os méritos e possibilidades de bem servir o seu Clube."
No fundo, era a certeza que à frente do emblema do Rei estaria um capaz de o amar tanto como aqueles que nas bancadas ansiavam por todos os triunfos. Um que seria a extensão da bancada nos gabinetes. Um que colocaria os interesses do Vitória acima de tudo...
Apesar disso, os tempos eram mais fáceis do que em outros anos. Os negócios referentes às vendas de Pedras e de Augusto Silva para o Benfica fez com que assumisse que "encontrei o Vitória em situação económica excelente, porventura a melhor de sempre, reflexo do bom sentido de administração das anteriores gerências." Tal devia-se ao "bom senso de aproveitar uma boa oportunidade que lhes surgiu", referindo-se às vendas das duas joias vitorianas.
Apesar disso, deixava um aviso que deveria ter sido ouvido pelos seus sucessores até aos dias de hoje: "Não podemos descansar sobre a tranquilidade económica do momento e muito menos alimentar a pretensão optimista de encontrarmos todos os anos, a solução dos problemas administrativos do Vitória na possibilidade de transacção de um jogador." Uma lição que, ainda hoje, deveria ser ouvida pois "temos de partir da ideia de que a felicidade (...) pode não durar sempre e que, por isso, se impõe de uma vez para sempre, alcançarmos condições próprias de subsistência." Isto, numa altura em que não se sabia o que eram SAD's, investidores ou visões empresariais...simplesmente amor a um clube e o interesse no seu constante engrandecimento.
Para conseguir "a definitiva estruturação económica" Cardoso do Vale não pretendia liderar o Vitória como um homem só. Com um regime de presidencialismo fechado em que só ele riscasse. Deste modo, "com a preciosa colaboração da equipa de Dirigentes que me acompanha (...) tentarei - ou melhor, tentaremos - partir do desafogo presente para uma definitiva estruturação económica do futuro, recorrendo a todos os vimaranenses...", através de apoio financeiro e, se tal não fosse possível, pelo menos fazerem-se sócios.
Teria êxito, conseguindo levar a equipa a dois quartos lugares e merecendo a honra de ser o presidente do clube aquando da estreia do estádio. Quando quiserem uma verdadeira inspiração de vitorianismo, têm aqui um bom exemplo... como mais alguns homens que foram determinantes na cristalização do Vitória como dos mais emblemáticos clubes nacionais.
