O Vitória durante os anos de 1955 e 1958 viu-se na contingência de jogar na Segunda Divisão Nacional.
Com o objetivo claro em regressar aquele que era o seu habitat natural, mas com claras dificuldades financeiras, o conjunto Conquistador via-se naquela época de 1956/57 num verdadeiro caminho bifurcado. Assim, ou depauperava as suas contas e arriscava no fortalecimento do seu conjunto, ou, então, mantinha as mesmas estáveis, mas correndo o risco de não ser o suficientemente competitivo na Segunda Divisão Nacional.
Porém, os jogadores tidos como necessários tinham de ser contratados e urgia fazê-lo de modo a que a equipa não perdesse terreno na fase inicial do campeonato secundário, pelo que nomes como o argentino Auleta ou Armando Barros, proveniente do Sporting, haveriam de chegar.
Porém, urgia ter dinheiro e, fruto disso, terá surgido uma daquelas manifestações tão próprias do Vitória e que faz com que a expressão "O Vitória é nosso" tenha sentido. Aliás, se não fosse como tal iniciativa seria possível?
Falamos dos denominados Bilhetes de Boa Vontade que, como escreveu o jornal Notícias de Guimarães datado de 28 de Outubro de 1956, tratavam-se de uma "iniciativa da Comissão de Auxílio do Vitória, pondo à venda os bilhetes a que chama de Boa Vontade para permitir uma ajuda dos sócios do Vitória à Direcção do Clube, dado o dispêndio com as últimas transferências."
Assim, os adeptos ajudariam o clube a financiar-se, podendo obter uma fonte de rendimento suplementar e que tanto jeito faria.
Porém, se este acto já era de louvar, da consulta deste número do jornal, mas também de outros, percebemos que tal iniciativa envolvia vários sectores comerciais da cidade, o que demonstrava que estes também se condoíam das necessidades do clube. Assim, no jogo em que estes eram anunciados, que se tratava de uma partida contra a Sanjoanense, o prémio foi uma oferta da Cervejaria Martins "e consta de uma caixa de Espumante Natural das Caves Império."
Apesar da colaboração do estabelecimento de restauração ainda hoje existente no Toural, também, por vezes, eram sorteados fogões ou calorímetros Gazcidla oferecidos pela firma Teixeira & Freitas Lda, ferros eléctricos "marca Loan, oferecido pelo Laboratório Rádio-Eléctrico, de José Neves.", "camisa Confiança, uma oferta da Casa Vilaça, da Rua de Santo António", "uma gravata de seda natural, oferecida pela casa Jaime, do Largo do Toural." Além disso, numa tentativa de seduzir as senhoras, interessando-as pelos sorteios, mas também, pelo Vitória, como se escreveu no jornal citado de 10 de Fevereiro de 1957, "no sorteio de hoje (que era o sempre apetecível desafio contra o Boavista) serão distribuídos dois brindes, um dos quais para senhoras, oferecido pela Casa de Modas Oliveira & Silva, Sucrs...."
Além disso, como sucedeu na partida frente ao Marinhense, que o Vitória empatou a um, o amor ao clube, ainda, ia mais longe. Como escreveu o Notícias de Guimarães datado de 11 de Novembro de 1956, "o sorteio fez-se ao intervalo do jogo (...) e coube ao nº977, em poder do Sr. Joaquim da Silva Xavier, sócio nº466 do Vitória, que teve a amabilidade de oferecer a caixa de espumante natural das Caves Império que lhe tocou, para ser sorteada novamente..."
No fundo, a manifestação que para o Vitória viver e sobreviver de todos precisava e só com a ajuda desprendida de quem realmente o amava poderia aspirar a ir mais além...pois sempre e mais alto não será demais!
