Terá sido o dia das Assembleias-Gerais mais determinantes da história do clube.
Assim, naquele Sábado, dia 17 de Novembro de 2012, o futuro do Vitória foi escalpelizado e...decidido!
Com efeito, à tarde, urgia aprovar as contas referentes à temporada de 2011/12, relativas à gestão de Emílio Macedo da Silva, bem como as de 2010/11 que haviam sido chumbadas pelos resultados financeiros apresentados, mas, também, como cartão amarelo à gestão errante do então presidente, para à noite se apresentar o modelo de SAD preconizado pela direcção de Júlio Mendes aos associados vitorianos.
Deste modo, depois de ter sido aprovada a eleição de um Conselho Vitoriano sui-generis, com muitos dos seus elementos com pouca ou nenhuma ligação associativa ao clube e com valências em outras áreas, confrontando assim com o estipulado estatutariamente, passou-se para a discussão das contas.
Estas seriam apresentadas pelo vice-presidente, Francisco Príncipe, e cuja mensagem mais importante e que se encontra plasmada na Acta nº61 das Assembleias-Gerais do clube e de onde se destaca que se "verificava na conta de gastos um valor acima dos dezanove milhões de euros, com mais uma derrapagem de cerca de quatro milhões de euros, pelo que o Clube estava com um resultado líquido negativo de cerca de oito milhões de euros." Além disso, e também alarmante, o facto de que "o passivo corrente não aliviou, por força do resultado negativo referido, o que tornava a situação líquida do clube próxima da insustentabilidade. O exercício finalizou assim com um passivo de quase 24 milhões de euros."
Uma situação que, à altura, era bastante preocupante e que seria confirmada no parecer do Conselho Fiscal, merecendo destaque um trecho que referia que "Não descortinava o racional estratégico da política de contratações do futebol profissional, suportado em contratações onerosas, pagamentos a empresários com elevadas comissões e valores salariais irrealistas. A título de exemplo, destacou o contrato do jogador Molina com a duração de 54 meses que onerou o clube com um custo total bruto de 1.116 milhões de euros, realizado já num contexto de salários em atraso e dívidas fiscais por liquidar." Além disso, "o passivo exigível do Vitória Sport Clube ascendeu a 23.009 milhões de euros o que se traduzia num aumento de 68.7% face ao ano anterior; o capital próprio havia sofrido uma forte redução, passando de 25.962 para 16.210 milhões de euros." Também, por isso, "não fossem os excedentes de revalorização de 32.425 milhões de euros, oriundos de processos de reavaliações de activos e que hoje, face à situação imobiliária existente, lhe parecem desajustados, o clube estaria hoje com os capitais próprios fortemente negativos e, portanto, em falência técnica acentuada."
Com um cenário que passava pela necessidade absoluta de reestruturar as dívidas, através da adesão ao Plano Extrajudicial de Conciliação de Dívidas (PEC), bem como a de entrada de dinheiro fresco que chegou aos 2,4 milhões de euros, com o presidente do clube, Júlio Mendes, a emprestar 322 mil euros, sendo que à data da reunião-magna só tinha em dívida 92 mil. Atento a estes factos, ao Conselho Fiscal "não lhe restava manifestar um voto de censura aos actos de gestão protagonizados pela Direcção anterior, que a seu ver conduziram à gravíssima situação financeira em que o Vitória Sport Clube se encontra."
Por isso, a justificação, também, dada por Júlio Mendes para a Assembleia de aprovação de contas, não se ter realizado no mês de Outubro, como estatutariamente estava prevista. Segundo o líder máximo vitoriano, "o Vitória não podia fazer uma Assembleia Geral e que dela resultasse para o domínio público, para a comunicação social a ideia de que o Vitória está falido." Por isso, também, "comunicou e pediu ao Sr. Presidente da Assembleia-Geral, que iam fazer duas assembleias; uma assembleia em que as pessoas tivessem plena consciência do problema do Vitória e uma outra onde seria apresentada aos sócios uma opção, uma solução, uma alternativa para o futuro do Clube, na tentativa de se alcançar a resolução dos seus problemas." Era a SAD que se avizinhava, que ia ser apresentada, para no dia seguinte ser votada por voto secreto em urna!
Embalado no discurso, Mendes condimentá-lo-ia com um pouco de demagogia ao afirmar que "... até tinha vontade de votar contra… mas que vantagem é que isso traria para o Vitória? Questionou. Nenhuma. Concluiu. Daí que apelava para a sua aprovação, apesar de traduzirem, no seu entender, uma vergonha. Aceita, referiu, que votar contra seria um acto de censura, mas o Clube tem problemas para resolver e há que olhar em frente, advogou; há instâncias no futebol que exigem que as contas dos clubes estejam aprovadas e o seu sentido de voto é de facto, ainda que contrariado, o da aprovação."
Seguiria, depois, para o caminho da vitimização, ele que meses antes advogava ter a solução para o clube não passar por semelhante sufoco, referindo que "Se não há dinheiro e ninguém financia, eu empresto e depois logo se vê. Com esta opção pessoal, coloca em risco a sua vida pessoal, mas a decisão é sua e não quer que ninguém dele tenha pena e se fala deste tema é só para que os Vitorianos tenham consciência da grave crise financeira e económica que o Clube atravessa." Justificava esta acção, pela razão de "o Vitória merece todos os sacrifícios. Conseguiu-se em tempo recorde a aprovação de um PEC o que permitiu a inscrição da equipa e a consolidação do passivo; requereu-se a homologação daqueles que não aderiram ao PEC; mas, continuou, há uma questão que o tem preocupado e que se relaciona com os dossiers respeitantes à banca. O Vitória, referiu, tem dívidas em quatro bancos,e há três perante os quais os pressupostos não foram cumpridos e, portanto, corre-se o risco deles abandonarem o PEC e então o Vitória fica numa situação calamitosa."
Fruto disso, pediu para ler a acta número 8 da reunião da sua direcção, em que se concluía que existia um "dever de apurar a responsabilidade disciplinar dos sócios do clube, nomeadamente daqueles que nos exercícios dos cargos sociais do clube para que foram eleitos, eventualmente não tenham desempenhado de forma zelosa, é chegado o momento de apurar as responsabilidades por tal situação, nomeadamente através da eventual responsabilidade disciplinar relativo ao Presidente, instaurando-se desde já um processo disciplinar para apurar os responsáveis que levaram o clube ao estado calamitoso em que está." Era o anunciar do processo disciplinar a Emílio Macedo da Silva, seu antecessor, e que em nada haveria de resultar...
Depois dos pedidos de esclarecimentos dos sócios, chegaria a hora da deliberação. As contas seriam aprovadas com 225 votos a favor, 159 contra e 91 abstenções... ou seja, somando os votos desfavoráveis e os abstencionistas não passariam, mas isso pouco interessaria, por tal hipótese não estar prevista nos estatutos vitorianos.
O Vitória via as suas contas aprovadas numa Assembleia-Geral, a todos os títulos, épica e podia concentrar-se para a da constituição da SAD que iria decorrer nessa mesma noite... mas isso será outra história!
