Perder por nove bolas a uma e encontrar pontos positivos no desafio será tudo menos comum. Ainda para mais para um clube com pergaminhos como o Vitória, onde a exigência anda sempre no máximo, onde todos nós exigimos o máximo.
Porém, naquela temporada de 1941/42, a da estreia na Primeira Divisão do conjunto vitoriano, não se pensava assim. Mais, o desporto era encarado numa vertente mais lúdica do que competitiva, que permitia que o que acontecia dentro do recinto de jogo fosse olhado por um prisma diverso daqueles a que estamos habituados.
Tal sucedeu na primeira visita ao terreno do Sporting à quarta jornada desse campeonato. Nesse dia, 08 de Fevereiro de 1942, não houve sorte de principiante que valesse à turma orientada por Alberto Augusto, que, como já dissemos, seria vergada a uma pesada derrota por nove bolas a uma, de pouco valendo o golo apontado por Zeferino quando a equipa já estava vergada a inacreditáveis oito a zero.
Porém, eram mesmo tempos diferentes dos de hoje que se viviam. Bastará atentar no título da crónica do Notícias de Guimarães do dia 15 desse mês e ano, que, apesar do funesto score, considerava que "o Vitória soube perder." Mais do que isso, conseguia encontrar pontos positivos na derrocada ao afirmar que deveria estar satisfeita pela "forma como compreendeu e respeitou a grande força do adversário que lhe coube em sorte."
Um respeito tão grande que fazia com que, apesar de estar a perder por três bolas sem resposta aos dezoito minutos do desafio, se considerasse que a primeira parte "foi a melhor, pela sensação de quási igualdade que proporcionou", comprovado pelo "grupo visitante algumas vezes arremeteu com a defesa contrária, em condições de fazer realçar o trabalho de Azevedo."
Todavia, reconhecia-se que a segunda parte fora bastante pior, com o Vitória a sofrer seis golos, contribuindo para isso um dos mais extraordinários goleadores do futebol português, Fernando Peyroteo, capaz de fazer balançar as redes do infeliz guarda-redes Machado por cinco vezes, antes de Zeferino, como já escrevemos, apontar o tento de honra vitoriano.
Apesar disso, ficava um rasto de esperança, num claro sinal da mentalidade daqueles tempos. Com efeito, "o grupo de Guimarães deixou a impressão de que, no seu campo ou noutros de dimensões igualmente pequenas, é susceptível de fazer perigar qualquer adversário dos mais fortes..." era um raio de crença, numa tarde, em que apesar das dificuldades que vivera, "Machado, o guarda-redes (foi) o melhor dos onze."
