I - A entrevista de António Miguel Cardoso ao Zerozero é desde logo surpreendente. Surpreendente porque os balanços fazem-se no final dos exercícios e porque, apesar da temporada estar a resvalar perigosamente para a desilusão, ainda seria cedo para aparecer justificações e até ataques declarados ao afirmar "que no início do ano íamos descer de divisão"
II - E esse terá sido o início da narrativa por si montada. Querendo dourar a pílula em relação a um ano difícil com o triunfo na Taça da Liga, que sendo extraordinário e belíssimo, não torna uma época mediana num ano para sempre recordar.
Com uma militância tão longa como disse ter, deverá saber que Geninho, o primeiro treinador a vencer um título no Vitória, nem a época acabou...porque no Vitória o mais essencial de tudo é uma boa prestação no campeonato.
III - Ora, querer transformar o belo, frise-se, triunfo na Taça da Liga à essência da época será redutor. Tanto assim será, que no início da época, sem que ninguém lhe exigisse, colocou a cabeça no cepo ao dizer que se o Vitória não se classificasse no quinto posto marcaria eleições antecipadas. Sem ninguém as exigir. Sem ser exortado a tal.
E, esse gesto, segundo ele magnânimo, porque tirou a pressão dos jogadores, terá mesmo funcionado assim? Ou será que equipa técnica e jovens atletas não terão sentido em cima dos ombros o peso do futuro de uma estrutura que poderia desabar?
Não teria sido melhor manter um clima de paz, assumir a ousadia das apostas e deixar as coisas acontecer?
IV - E já que falamos na remodelação da equipa, o presidente vitoriano começou bem a justificar a infeliz tirada dos vaidosos, quase redimindo-se da argolada que cometeu em pleno aniversário do clube, para acabar por apontar um atroz autogolo. Um autogolo que passou por considerar excessivos os carros que andam atrás do autocarro do Vitória (!) demonstrando profundo desconhecimento do amor que os adeptos têm pelo clube, para acabar a voltar a atacar os jogadores... com uma curiosa estatística em que acertavam mais passes quando os jogos estavam empatados a zero!
V - E nessa sanha justificativa terá cometido um contra-senso que dizimou a política de ccomunicação preconizada em toda a época passada. Na verdade, o Vitória foi prejudicado pelas arbitragens gravemente em vários desafios, Entre eles, com o Boavista, no D. Afonso Henriques, com duas grandes penalidades muito duvidosas, para lá do período regulamentar do jogo, a roubar dois pontos aos Conquistadores. Hoje, essa realidade passou para trás das costas, de modo a dizer que foi o desleixo dos jogadores que tal permitiu.
VI - Se assim é, a propalada cultura de vitoria que se ufanou de existir, será uma falácia. O auto-elogio que, agora, no Vitória, segundo ele, joga-se sempre para ganhar, terá admitido este tipo de lapsos? A liderança que implementou uma filosofia que não existia num clube centenário e que agora se rege por esse realidade lapaliciana fracassou no momento decisivo, precisamente por não ter existido essa cultura?
VII - Ainda assim, da boca de António Miguel Cardoso não se ouviu o que talvez mais se esperasse. Manter a comunicação inequívoca de que se o Vitória não ficar em quinto cumprirá com a sua palavra.
Pelo contrário. Bateu na tecla da conquista na Taça da Liga. Reforçou que daqui a muitos anos será disso que nos lembraremos. Falou em assembleias-gerais. No fundo, a querer dar a entender que poderá transformar um sufrágio eleitoral num plebiscito em Assembleia-Geral, onde uma hipotética moção de confiança poderá evitar a ida a eleições.
VIII - Outro ponto interessante é a relação com a V Sports. Que se irá manter como está. Mantém-se o discurso de o parceiro ter interesse no Vitória. Que não quer vender. Que o Vitória é maioritário, Ainda que não se diga, como se referiu nas Assembleias-Gerais que decidiram a aliança, que o parceiro iria ter poderes de decisão sem ter a maioria. No fundo, o que António Miguel Cardoso referiu que "comigo nunca perderemos a maioria", será algo facilmente rebatível num qualquer acordo parassociual.
IX - Por fim, a assunção clara que o Vitória tem muitos jogadores vendáveis. Que terá de vender no final época, até porque não o fez em Janeiro. Terá faltado uma pergunta clara sobre as contas do clube. Porque não apresenta as prometidas contas intercalares. Mas, o facto de ter dito que vende três ou quatro jogadores e "zera o passivo" foi preocupante. Foi redutor para quem tem a obrigação de ir mais além. E indo-se os anéis, estarão os dedos aptos para projectarem o Vitória para as competições europeias e aí terem uma montra que os valorize como sucedeu com Alberto, Manu e mais alguns?
X - No fundo, no Zerozero, António Miguel Cardoso foi zero quanto a novidades... foi zero quanto a projectos futuros... e isso só de si será preocupante!
