O ano de 1934 ficou gravado na história do Vitória Sport Clube. Foi o ano do primeiro título distrital dos Conquistadores, então orientados por Puskas. Um campeonato arrancado a ferros, conquistado diante do eterno rival, o SC Braga, que até aí dominava o panorama distrital, mas que nessa final a duas mãos não conseguiu impor-se. Valeu o golo solitário de Paredes no Benlhevai, suficiente para mudar a história.
Mas até lá, houve luta. Muita. A equipa vitoriana percorreu o campeonato com sacrifício, alma e talento. E foi precisamente o talento que, a 4 de Fevereiro de 1934, em Fafe, evitou que o sonho morresse cedo demais.
O empate a dois nesse jogo teve a assinatura de Bravo, um extremo genial, desses que aparecem uma vez por geração. No Notícias de Guimarães, a 4 de Dezembro de 1992, era descrito assim: “de estatura baixa, fintava em corrida como hoje ainda não vimos fazer a ninguém, deixando aparvalhados os adversários, já que fugia como um rato nas direcções mais imprevistas, deixando os olhos trocados e os rins partidos a todos aqueles que directamente o defrontavam.”
E nesse dia fez jus à fama.
A descrição do golo merece ser recordada tal como foi escrita, pela força e pelo entusiasmo com que foi narrada:
“… no seu estilo muito característico, Bravo apodera-se da bola, progride em linha recta, apesar dos zig-zags que tem de fazer, finta um, dribla outro, troca os olhos ao terceiro, fura, sabe-se lá como, o corpanzil de um quarto, voa por cima de um quinto, mesmo sem ter asas, tudo isto com a bola dominada, de tal maneira que a mesma parecia colada aos seus pés e com uma sorte de magia, afasta o guarda-redes fafense e entra como um rato feliz e travesso na baliza adversária, fazendo jogada de rara beleza…”
Um golo maradoniano. Décadas antes de Diego Maradona nascer.
Foi esse toque de génio que selou o empate e manteve o Vitória vivo na corrida pelo título.
Sem ele, talvez não houvesse final. Sem ele, talvez não houvesse o golo de Paredes no Benlhevai para decidir. Há golos que valem troféus; este valeu a possibilidade de o disputar.
Por isso, merece estar na galeria dos momentos eternos do clube. Ao lado dos golos de Soudani e Ricardo na final da Taça de Portugal, de N’Doye e Samu na final da Taça da Liga, de N’Dinga e Décio António na Supertaça Cândido Oliveira… e, claro, do golo decisivo de Paredes nesse campeonato distrital.
Porque antes dos títulos nacionais, antes das noites grandes, antes de tudo, houve 1934. E houve António de Pádua Ribeiro, que, para o futebol, sempre ficou conhecido como Bravo.
Bravo!
