Aquela época de 1954/55 foi tudo menos pacífica.
Com efeito, sob o comando do inglês Galloway, o Vitória acabaria por cair na segunda divisão de forma inesperada e dolorosa. Para isso, muito contribuiu, também, a partida do goleador Caraça rumo ao Lusitano de Évora, alegando que lhe fora arranjado um emprego na autarquia eborense, o que naquela altura permitia que os atletas trocassem de clube.
Todavia, tal atitude não caiu bem nos vitorianos, que passaram a ver o clube eborense como um emblema non-grato, o que fez com que aquele desafio disputado a 09 de Janeiro de 1955 fosse visto como uma contenda de intensa rivalidade. A confirmar esta tese, o escrito no jornal Notícias de Guimarães de 09 de Janeiro de 1955, que dizia que "...somos obrigados a receber hoje, no nosso Campo da Amorosa, imposto pelo calendário se prova, aquele clube que consideramos, e sempre consideraremos, como menos leal para connosco. Não é somente o caso Caraça, o motivo da posição por nós tomada...", o que "justificou o corte de relações, que se deliberou em Assembleia Magna da massa associativa do Vitória e que, em ridícula atitude, se diz não ter sido retribuído."
Assim, exortava-se a que os adeptos Conquistadores recebessem o conjunto alentejano com "aquela atitude de desprezo que merecem aqueles que cá somos obrigados a receber."
Contudo, as condições atmosféricas haviam de pregar uma partida a todos, com o desafio a ser interrompida aos oito minutos da etapa complementar. Na verdade, o Campo da Amorosa, nesse dia, demonstrou já não ter capacidades para receber um desafio do campeonato nacional de futebol. Como escreveu, o Notícias de Guimarães de 16 de Janeiro de 1955, "o seu acesso, em dias da invernia, como o de Domingo passado, é verdadeiramente impossível, com lamice por todos os lados, e, como os automóveis têm de ficar longe, somente com muita dedicação é que apetece ir ver um jogo." Se fora do campo as condições eram terríveis, "dentro do campo do mesmo modo as suas instalações são precárias, sem a mais rudimentar comodidade para os espectadores ver um encontro em dia da chuva, com uma bancada de pequena lotação, incómoda e incapaz de produzir rendimento suficiente."
Mais do que isso, tais dificuldades tornavam difíceis as condições de subsistência da equipa, "por causa da pouca capacidade que as condições precárias do seu campo de jogo originam, quer quanto a adestramento técnico dos jogadores, quer ainda quanto a rendimento económico, que é o fruto de todos os empreendimentos."
Atento a todas estas condicionantes, como escrevemos, o jogo seria interrompido aos 53 minutos do seu desenrolar. Haveria de ser retomado posteriormente, quando já o Vitória vencia por uma bola a zero graças ao golo de Miguel, o qual seria suficiente para a equipa conseguir um dos cinco êxitos que esse ano almejou...insuficientes, porém, para permanecer no campeonato principal!
Quanto à Amorosa, ainda, haveria de ter de aguentar mais uma década... mas isso já será outra história!
