Viveu-se uma noite infeliz no D. Afonso Henriques...
Surpreendentemente, o Vitória foi eliminado pelo AVS da Taça de Portugal. Para além de actuar no seu Castelo, os Conquistadores enfrentavam o último classificado da Primeira Liga, que ainda não venceu no seu campeonato, e que o único triunfo obtido este ano, em noventa minutos, até ontem, tinha sido obtido frente ao Fornos de Algodres que actua nos distritais da Guarda.
Porém, foi, apenas, mais um capítulo infeliz de uma relação conturbada com o futebol português, que começou a ser disputada em 1938/39 e em que a equipa vitoriana foi eliminada pelo FC Porto. Com efeito, numa eliminatória a duas mãos, depois de, surpreendentemente ter vencido os Dragões no Benlhevai por três bolas a duas,perderia por onze tentos a um em casa do adversário.
Mas, atendendo à, então, diferença de valores existente entre as duas equipas, nem contabilizamos esse como um episódio funesto na relação vitoriana com a prova.
Começamos por isso, com a malapata das finais perdidas, que já foram seis. A primeira em 1941/42 frente ao Belenenses em que o vento terá sido apontado como principal culpado do sucedido, tendo a última ocorrido em 2016/17, naquela final sob intempérie, frente ao Benfica. Ao todo, seis finais perdidas e cada uma com a sua história:
- 1941/42 - Belenenses - O vento a ser o principal culpado e com a equipa a ser recebida em festa apesar da derrota;
- 1962/63 - Sporting - Com a equipa cansada por ter disputado a meia-final quatro dias antes contra o Belenenses, com jogadores preponderantes lesionados e um ambiente de excessiva euforia que levou à derrota;
- 1975/76 - Boavista - A final do roubo de Garrido... não precisamos de dizer muito mais);
- 1987/88 - FC Porto - Pese embora a boa exibição, na hora da verdade a deusa Fortuna caiu para o lado do mais forte);
- 2010/11 - FC Porto - Mais do que perder com uma goleada por seis a dois o modo como aconteceu. Empatar a partida por duas vezes e sofrer outro golo no minuto a seguir, desperdiçar uma grande penalidade que reabriria o jogo e uma tarde infeliz do guarda-redes Nilson, tudo contribuiu para mais uma desilusão);
- 2016/17 - Benfica - Uma tarde de intempérie em que Pedro Martins surpreendeu com algumas escolhas, como a mudança de guarda-redes, contribuíram para que uma final dividida, caísse para o clube lisboeta).
Mas,. se estes seis episódios ocorreram no jogo decisivo, da competição o que dizer de três eliminações terríveis contra o eterno rival, SC Braga, ou pelo resultado ou pelo modo como sucederam.
Deste modo:
- 1958/59 - Numa eliminatória a duas mãos, o Vitória, depois de triunfar por duas bolas a zero na Amorosa, perderia estrondosamente na cidade vizinha por quatro tentos sem resposta;
- 1966/67 - Também, numa eliminatória a duas mãos, depois da equipa já ter perdido a primeira mão em Guimarães por duas bolas a uma, seria goleada na Cidade dos Arcebispos por cinco tentos sem resposta;
- 1977/78 - Depois de ter empatado a um na cidade vizinha, seguiu-se o jogo de desempate em Guimarães. Os Conquistadores, a actuar em casa, haveriam de ser derrotados por quatro bolas a zero;
- 2014/15 - Em casa, frente ao eterno rival, um jogo dividido e disputado, num verdadeiro derby, de pouco valeria o golo de André André. O Vitória perderia por duas bolas a uma;
- 2022/23 - Em Braga, o Vitória ao intervalo vencia por duas bolas a zero, graças aos golos de Anderson e de Jota. Assim, depois de Nélson da Luz desperdiçar de forma inglória o terceiro golo que poderia resolver definitivamente, a partida, o adversário entre os 80 e 85 minutos marcaria três golos, eliminado a equipa, então, orientada por Moreno.
Mas se estes "tombos", doeram, o que dizer das quatro eliminações às mãos do Moreirense, três delas consecutivas e com o clube a actuar nos escalões secundários? Assim:
- 1998/99 - Com Quinito no banco, os Cónegos colocaram-se em vantagem. Gilmar empatou. O adversário voltou a marcar antes do intervalo, para no início da segunda metade, o avançado brasileiro do Vitória voltar a igualar. Não haveria, contudo, antídoto para o terceiro golo da equipa vizinha, que, pela primeira vez, arredava os Conquistadores da prova rainha do futebol português;
- 1999/2000 - Na temporada seguinte, quando já se vislumbrava o Jamor, nos quartos de final da prova, em pleno D. Afonso Henriques, um golo solitário de Fernando Pires foi um verdadeiro balde de água gelada sobre todos os vitorianos;
- 2000/01 - Desta vez, em Moreira de Cónegos, com Álvaro Magalhães ao leme, os Conquistadores perderam por quatro bolas a três. Depois de estarem a perder por duas bolas a zero ao intervalo, o Vitória iria dar a volta ao marcador, para acabar por perder por quatro bolas a três. Refira-se que o Moreirense, neste ano, disputava o terceiro escalão do futebol nacional;
- 2021/22 - Com Pepa ao comando, frente a um Moreirense que estava no último lugar da tabela classificativa do escalão principal, o Vitória quando acordou esteve a perder por três bolas a zero. Haveria de reduzir para a margem mínima, mas insuficiente para evitar a eliminação.
Falemos, agora, das eliminações perante equipas de escalões inferiores, que começou logo na longínqua época de 1943/44.
Deste modo:
- 1943/44 - Nas meias-finais da Taça de Portugal, perante o secundário Estoril, a hecatombe seria inimaginável. Numa eliminatória a duas mãos, o conjunto vitoriano perderia por cinco tentos sem resposta na Amoreira e depois por quatro a um no Benlhevai;
-1964/65 - Frente ao Salgueiros que actuava na Segunda Divisão empataria a um o primeiro jogo em Vidal Pinheiro. Perderia o segundo por um a zero e seria eliminado;
- 1973/74 - Em Famalicão, frente à equipa da casa que disputava o segundo escalão, não obstante o golo precoce de Custódio Pinto, o Vitória acabaria por perder por duas bolas a uma;
- 1976/77 - Perante a CUF, em queda e já na segunda divisão, o Vitória seria derrotada por quatro bolas a três;
- 1980/81 - Os mais velhos jamais esquecerão a eliminatória frente ao Sacavenense. Com efeito, os comandados de José Maria Pedroto perderiam por duas bolas a uma, numa partida que celebrizou Carraça, que, por causa desse jogo, analisou o Vitória;
- 1984/85 - Na Madeira, perante um Marítimo, na altura, a disputar a Segunda Divisão, os comandados de Goethals cairiam sem honra nem glória;
- 1988/89 - Em Sines, frente ao Vasco da Gama, que disputava a Terceira Divisão Nacional, o Vitória sofreria uma das maiores humilhações da sua história;
- 1990/91- Frente ao secundário Feirense, um golo bastou para eliminar o Vitória;
- 1991/92 - Perante o secundário Sporting de Espinho, na casa do adversário, os Conquistadores de João Alves perderiam por duas bolas sem resposta;
- 1994/95 - Em casa, perante o Louletano, a actuar na então II Divisão B, os homens de Quinito, não obstante o golo de Ziad, seriam derrotados por duas bolas a uma;
- 2003/04 - Com Jorge Jesus ao leme, o Vitória seria eliminado em casa pela secundária Naval Primeiro de Maio;
- 2006/07 - Apesar de estar a disputar a Liga 2, os homens de Norton de Matos seriam eliminados pelo Mafra por duas bolas a uma, no prolongamento;
- 2011/12 - Na Vila das Aves, com o clube local a disputar o segundo escalão, o Vitória de Rui Vitória seria eliminado no desempate pelos pontapés de penalty. Quem poderá esquecer a infeliz "panenkada" de Barrientos?
- 2015/16 -. Em Penafiel, com Sérgio Conceição ao leme, perante um adversário do segundo escalão, o Vitória foi uma sombra de uma equipa com ambições. Perderia por duas bolas a zero e Sérgio colocou o lugar à disposição. Não seria, contudo, aceite a sua saída...
- 2019/20 - Frente ao Sintra Football, em vésperas de enfrentar o Arsenal em Londres, a equipa de Ivo Vieira seria eliminada no desempate por pontapés de penalty. Uma das maiores tristezas da história;
- 2024/25 - O que dizer de Elvas na época passada? Apesar do golo inaugural de Michel a indiciar facilidades, a segunda parte da partida seria um terrível pesadelo, que custou a eliminação na prova frente a um adversário do quarto escalão do futebol nacional.... mas, também, o lugar de Daniel Sousa.
Temos, também de relembrar eliminações contra equipas do mesmo escalão, mas acessíveis, e por vezes com o "fantasma" do desempate por pontapés de penalty a fustigar o Vitória.
Lembremos estes momentos;
- 1981/82 -Apesar do Amora estar a disputar o principal escalão, os comandados de Pedroto eram favoritos, Cairiam por duas bolas a uma;
.- 1983/84 - Nas meias-finais da Taça de Portugal, frente ao Rio Ave, depois de ter empatado a zero em Guimarães, seguiu-se o jogo de desempate em Vila do Conde. A sorte dos penaltys nada quis com o Vitória, perdendo por quatro a três, fugindo, assim, o sonho do Jamor;
- 2005/06 - Em Setúbal, nas meias-finais da Taça de Portugal, Saganowski adiantou o Vitória no marcador, já no prolongamento. Porém, os sadinos haveriam de empatar o jogo na última jogada do desafio, para vencerem nas grandes penalidades. Mais do que a eliminação, registe-se o afundar psicológico, que levou o Vitória para a Liga 2;
- 2007/08 - Novamente em Setúbal, novamente no desempate pelos pontapés de penalty, mas com Cajuda no banco de suplentes;
- 2009/10 - Em Vila do Conde, frente ao Rio Ave, depois dos comandados de Paulo Sérgio terem eliminado o Benfica, haveriam de cair no desempate pelos pontapé de castigo máximo;
Falemos, por fim, das eliminações sofridas em casa, perante adversários do mesmo escalão, ainda que o Vitória fosse favorito.
- 1989/90 - Aquela meia-final frente ao Estrela da Amadora parecia ser só mais um passo rumo ao caneco, sendo que na final o Vitória iria jogar com o Farense a militar na segunda divisão. O golo inaugural de Caio Júnior assim fez crer... mas com Basaúla, um vitoriano emprestado aos amadorenses, estes haveriam de dar a volta à contenda, arruinando um sonho que pareceu tão real;
- 2008/09 - Novamente o Estrela, nos quartos de final da prova, em que um golo bastou para eliminar os comandados de Manuel Cajuda;
- 2020/21 - Frente ao Santa Clara, um golo bastou para confirmar a escassez de soluções dos homens liderados por João Henriques para dar a volta ao texto;
- 2024/25 - Ontem, frente ao AVS. O que dizer?
São estes os episódios infelizes do Vitória na Taça de Portugal. Uma relação conturbada, digna de uma longa metragem e em que 2013 constituiu-se uma excepção. Até quando'
