COMO UM TREINADOR DE RENOME MUNDIAL CHEGOU A GUIMARÃES, APESAR DA MUITA POLÉMICA E DE MUITA DISCUSSÃO...

Terá sido uma das maiores pedradas no charco durante o consulado de 24 anos de Pimenta Machado. O desejo de colocar o Vitória nas bocas do mundo através da contratação de um técnico de renome mundial...e com um escândalo de corrupção que fez correr muita tinta.

Falamos do Velho Feiticeiro, Raymond Goethals que terá sido uma das aquisições mais surpreendentes do futebol português a nível de treinadores... ele que, na altura, era tido como um dos melhores do Velho Continente na sua função e que, depois do Vitória, haveria de continuar a confirmar as suas capacidades como, quando em 1993, venceu a Liga dos Campeões com o Marselha perante o AC Milan.

Mas, para chegar ao Vitória, Goethals teria de viver o inferno. Um terror que, curiosamente foi desencadeado por uma época de sonho, quando em 1982 venceu o campeonato do seu país com o Standard de Liege, a equipa que orientava, e uma épica campanha na Taça das Taças... que haveria de ser a sua desgraça. Com efeito, jogava-se a derradeira jornada da liga do seu país, em que o conjunto treinado por Goethals precisava de vencer o tranquilo Waterschei para carimbar o título, mas, simultaneamente, tinha no pensamento o, provavelmente, jogo mais importante da sua história, que seria a final da Taça das Taças frente ao Barcelona, em pleno Camp Nou. Assim, para a sua equipa cumprir a dupla missão de sagrar-se campeã nacional e poupar-se para o desafio europeu, o técnico terá ajudado a subornar jogadores da equipa adversária, algo que foi descoberto em Fevereiro de 1984, antes de um jogo de preparação da selecção nacional belga perante a Alemanha.

Um escândalo que, como escreveu o jornal inglês The Guardian, datado de 26 de Maio de 2020, o obrigou a "demitir-se do Standard e foi proibido de trabalhar na Bélgica durante um ano. Sempre negou qualquer irregularidade e dedicou apenas um pequeno parágrafo da sua autobiografia de 1994 ao caso, definindo-o como «ajuste de contas político."

Com a decisão do castigo a ser tomada a 02 de Abril de 1984 e com o treinador austríaco Stessl, no fio da navalha, Pimenta tentou jogada de mestre: contratar o técnico belga, independentemente do ocorrido, algo que gerou grande polémica na imprensa nacional. Bastará transcrever este trecho do Povo de Guimarães de 02 de Maio de 1984 e que escrevia que "Os falsos moralistas do futebol nacional apareceram todos a gritar a quatro ventos que era uma ofensa moral para Portugal de um técnico vedeta do futebol europeu, apenas porque ele participou, pelo menos de tal é acusado, num processo de suborno no futebol belga."

Porém, a decisão da direcção vitoriana era defendida com unhas e dentes, pois "...a falsa moral pregada é ridícula. Primeiro, porque a acção de que é acusado não é virgem no futebol, mesmo no nosso Nacional ainda que não provada, nem ela só por si pode definir o carácter de um técnico." Por isso, "há que efectivamente (...) desde já denunciar tão ampla campanha e evitar que dela resultem efeitos negativos de carácter psicológico que estão a ser procurados."

O treinador chegaria a Guimarães a 05 de Julho de 1984 e sofreria, desde logo, um balde de água gelada, provavelmente, por vir treinar o Vitória e não uma equipas das mais protegidas e mediáticas. Como escreveu o Notícias de Guimarães de 13 de Julho de 1984, "poderemos anunciar que Goethals ficará em Guimarães como colaborador da equipa vimaranense, já que a Federação entendeu não deixar que o Vitória o tenha como treinador." Tratava-se de uma decisão duramente criticada no Povo de Guimarães, ainda que a FIFA tivesse anunciado que não autorizava contratos do técnico em qualquer país durante o período de suspensão. Ainda assim, "entendemos na ocasião, como desatempadas as atitudes assumidas pela F.P.F. em relação a tal decisão...", já que sem qualquer contrato assinado entre o belga e o Vitória e sem sequer a sua suspensão transitar em julgado apressou-se a condenar a aposta dos Conquistadores.

Deste modo, "o treinador belga ocupará outro lugar, no quadro dos responsáveis vitorianos, para poder ir para o banco." Seria, também por causa desta informação, apesar do curriculum do técnico, que o Povo de Guimarães de 25 de Julho, dava a conhecer que "nova época começa com a massa associativa desiludida." Com efeito, "logo que as primeiras informações chegaram, nas tertúlias as críticas e as desilusões foram manifestadas." Assim, "que importa que o treinador seja bom? Sem ovos, não há omeletas, dizia-se na esquina do La Coupolle (...) Vai ser uma época de andar com as calças na mão..., afirmava-se à porta da Cervejaria Martins." Uma época que começaria do seguinte modo: "a preparação será conduzida por Goethals, o verdadeiro responsável, embora não podendo ir para o banco, por Djunga, com mais responsabilidades derivantes da sua presença no banco e pelo Prof. Manuel Machado, que depois das suas experiências no Andebol do D. F. Holanda e no Futebol juvenil do Vitória passar a integrar o Futebol Sénior."

Contudo, acima de tudo, e, como quase sempre, os sócios teriam razão...seria uma temporada difícil, quase terrível, quiçá, salvando-se o Vitória de males maiores pela experiência de Raymond La Science, outra das suas alcunhas. Mas, isso será outra história...

Postagem Anterior Próxima Postagem