A temporada de 1983/84 começara em ebulição no Vitória.
Apesar desse exercício trazer consigo o regresso europeu, catorze anos depois, a verdade é que o litígio entre o capitão Abreu e o treinador Stessl colocara os nervos em franja aos Conquistadores, não obstante terem vencido na primeira jornada o Varzim, graças aos golos de Amândio Barreiras e de Eldon.
Seria, sem o seu capitão que o Vitória rumaria ao Bessa para a segunda jornada do Campeonato, sendo o seu onze composto por Silvino; Gregório Freixo, Amândio, Murça I, Laureta; Paquito, Nivaldo, Barrinha, Flávio; Éldon e Júlio.
Como escreveu o jornal A Bola de 05 de Setembro de 1983, numa extraordinária crónica assinada por Vítor Santos, tratou-se de um jogo que à segunda jornada da prova rainha do futebol português merecia já lugar garantido no galarim dos melhores jogos, pois "5-5 em vez de 0-0 e teria sido uma gala do futebol."
A confirmar esse facto, a confissão do cronista de ter corrido o "perigo de ficar com um torcicolo no pescoço", atento a "partida altamente emotiva, marcada por uma dinâmica todo-o-terreno invulgaríssima em Portugal", levando-o mesmo a questionar se estava no Bessa ou num campo inglês "onde reina o futebol corrido, íamos a chamar-lhe o futebol-ténis de bola cá, bola lá, com o aproveitamento de todo o terreno, onde cabe ao mesmo tempo o lance largo e poderoso, electrizante, e o amortie subtil, capcioso e sibilino, que deixa um sujeito pató, inapelavelmente derrotado."
Num jogo emocionante, frenético, ainda que, como já escrevemos sem qualquer golo, o Vitória, mesmo assim, foi "um espanto em termos de dinamismo e variedade de jogo, tudo num aliciante clima colectivo de ambição, invulgarísimo nas equipas que actuam fora de casa e fazem da contenção das iniciativas do antagonista, naturalmente mobilizado para a conquista dos dois pontos, a sua principal, quando não a sua única preocupação."
Acrescentava, ainda na sua escrita cuidada, o inesquecível jornalista, que, "O Vitória de Guimarães deu-lhe no Bessa(...) o vigor de um dinamismo constante, que é aí e só aí que está a vida dos sistemas tácticos, que não são nada fórmulas ou expressões aritméticas frias e estáticas, mas a inteligência e a estratégia em movimento - um movimento constante, que considere os 7000 metros quadrados do campo de jogo e, assim, sem que fiquem por pisar nem que sejam, 200 ou 300 centímetros quadrados de relva..."
E assim, o Vitória não teve pejo em assumir o jogo perante um emblema sempre rival, também muito graças a um "Laureta endiabrado e polivalente, real e falso defesa, real e falso centrocampista, real e falso atacante, tudo ao mesmo tempo", a um "Nivaldo machão e patronal, de pernas de uma Pantera Cor de Rosa, peluda, que alternadamente estendem e encolhem e, mais que tudo, são clubs de golfe, que metem a bola nos dezoito buracos do campo (...) mais parecendo que o brasileiro, em vez de jogador de futebol é um exímio sulfatador de relva" e a um "Paquito diabólico (...) numa orgia de movimento que deixa conquistado, quando não embasbacado, qualquer sujeito."
Perante tamanha explosão de sentimentos e igual manifestação de qualidade, Stessl era um homem feliz pela exibição, ainda que aliviado, visto o Boavista ter desperdiçado uma grande penalidade. Contudo, lamentava-se da falta de remate da equipa, o que impossibilitou o triunfo... e, talvez, o 5-5 que a Bola considerara justo!
