COMO NAQUELA ASSEMBLEIA GERAL, TUDO SE FICOU A SABER SOBRE O DESPEDIMENTO DE MÁRIO WILSON, O TREINADOR COM MAIS JOGOS PELO VITÓRIA, E DE COMO A MESMA FOI JUSTIFICADA PELA DIRECÇÃO DE GIL MESQUITA..

Terá sido a assembleia-geral mais marcante da história vitoriana. Uma reunião magna que quem nela participou jamais esquecerá. Falamos daquela em que nas instalações da Escola Preparatória João de Meira de 07 de Junho de 1979 e que tinha como ponto único a "apreciação e discussão dos problemas do futebol profissional do clube." Ora, esses problemas atinham-se com o despedimento do treinador Mário Wilson, verdadeira referência técnica do Vitória da década de 70 do século passado, e, ainda hoje, o homem que mais vezes se sentou no banco vitoriano na sua história.

Seria o presidente Gil Mesquita a tomar a palavra para falar aos sócios, começando, como narrou o jornal do Vitória de Maio de 1979, os diversos momentos que levaram a que as relações com o treinador se degradassem de modo irreparável.

 

I - UMA BURLA NO BRASIL QUE CUSTOU CARO AO CLUBE

Os problemas começaram no início daquela época de 1978/79.

Com efeito, com o objectivo de projectar o clube para os mais altos patamares, como escreveu o jornal mencionado, "surgiu a ideia de o ex-técnico se deslocar ao Brasil, no sentido de procurar os reforços adequados à necessidade da equipa.”

Ora, seria em terras sul-americanas que Wilson receberia o contacto de um húngaro, Janos Traitai, que com a promessa de lhe facultar o contacto de jogadores, e que levou o Vitória a pagar 80 contos... no final, não existiria qualquer contacto com atletas e o clube ficaria sem aquele montante.

II - UM CONVITE PARA SELECCIONADOR QUE O FEZ DESEMPENHAR DUAS FUNÇÕES

Além disso, durante a temporada seria convidado no decurso da temporada para assumir as funções de seleccionador nacional. Atendendo a este desejo, foram "promessas feitas de que o Vitória não seria lesado nos seus interesses.” Tal não haveria de ocorrer, considerando o Vitória que "M. Wilson não esteve à altura da confiança que a direcção lhe concedeu pois, na realidade, o Vitória acabou por ser excessivamente prejudicado.”

A comprovar essa realidade as longas ausências do treinador de Guimarães, que antes do jogo do Benfica chegou a estar longe de Guimarães durante um mês. Tal levou à "decisão de procurar a contratação de um preparador físico, para além de se ter elaborado um plano de reestruturação total do sector." Depois de tal projecto ter sido apresentado ao técnico, o mesmo foi aceite por este, para "... das suas habituais características de indefinição nunca mais quis tratar do assunto."  

III - UM CONVITE PARA RENOVAR QUE NÃO FOI ACEITE...PARA DEPOIS VOLTAR ATRÁS

Apesar disso, durante esse ano, o Vitória terá tentado renovar o vínculo contratual de Wilson, ainda que com a certeza "que aquele profissional teria de subordinar-se ao plano da Direcção que o responsabilizava por uma organização que nunca existiu no clube."

Por isso, foi o técnico abordado para renovar, sendo que, logo disse, que "tinha sido abordado pelo Benfica, mas pediu que fosse adiada a resolução do assunto por mais algum tempo." Nada mais dizendo sobre o assunto, com o prazo a passar, "o Vitória teve de procurar outro técnico, o que Wilson achou correcto."

Todavia, passados uns dias tudo haveria de mudar. Depois do treinador ainda em exercício ter questionado Gil Mesquita como estavam as conversações com o novo treinador, e tendo ficado a saber que as mesmas seriam ultimadas nesse mesmo dia, "mostrou-se surpreendido por o assunto se encontrar já tão adiantado e referiu que afinal até já estaria disposto a renovar com o Vitória, pois também não se sentia com disposição para aguardar a resolução do Benfica." Tendo sido informado que tal decisão era tardia e que o Vitória não iria roer a corda com o novo técnico, Mário Imbeloni, Mário Wilson pareceu compreender tal facto, "mas o que é certo é que o seu comportamento modificou-se radicalmente a partir desse momento."

 

IV- GUERRAS COM A DIRECÇÃO POR CAUSA DOS JOGADORES

Por essa altura, outro problema surgiu no Vitória.

Com efeito, tendo o clube agendado uma digressão a França na altura da Páscoa, foi estabelecido um prémio de 6 contos para os jogadores, que reivindicaram que o mesmo fosse de 8, "ou então não iam fazer os jogos, pois o dia de Páscoa era seu dia de descanso."

Para resolver o imbróglio, Gil Mesquita resolveu falar pessoalmente com os jogadores, o que "M. Wilson achou bem, pedindo apenas que o Presidente não fosse muito duro nas suas palavras." Assim, o presidente referiria que "aquela não era a melhor forma para resolver os problemas. No entanto, e em face do compromisso assumido com o empresário, o Vitória não tinha outra alternativa que não fosse a de aceitar o que lhe era exigido." Deixaria, contudo, a promessa que no futuro "procuraria não ter de fazer mais cedências pois os profissionais teriam de respeitar os seus compromissos (...) correspondendo ao cumprimento da Direcção para com eles."

Com a reunião controlada e as partes serenadas, "Mário Wilson falou para discordar das afirmações do Presidente da Direcção aos jogadores, pois o mesmo tinha usado de expressões muito duras." Por isso, a partir desse dia, como não poderia deixar de ser, as relações entre a direcção e o treinador ficaram seriamente deterioradas, sendo notório o desalinhamento entre as partes.

 

V - APROVEITAMENTO DA COMUNICAÇÃO SOCIAL PARA FINS PESSOAIS

Este rol de acontecimentos levaria a que o treinador começasse "a dar entrevistas em que, de um modo velado, deixava transparecer a ideia de que para os maus resultados da equipa haveria uma razão que referia como uma quebra do bloco."

Para perceber o que o treinador queria dizer, a direcção pediu-lhe que prestasse explicações por escrito, o que este fez através "de uma série de argumentação confusa, não apontou mais do que o caso já citado, das palavras do Presidente da Direcção aos jogadores a propósito da ida à França e das declarações feitas pelos jogadores em Janeiro a propósito, também, de um prémio de 2.000$00..."

Ora, tal fez com que a direcção confirmasse o "que já vinha constatando" e que passava pela "encenação que o treinador vinha fazendo, para alijar as suas próprias responsabilidade, pelos maus resultados da equipa..."

VI - UMA ENTREVISTA EXPLOSIVA

No jornal A Bola, o treinador houvera exposto os seus motivos, apresentando a sua defesa. Porém, tal seria reputada de insultuosa para o presidente da direcção vitoriana, mas também para o presidente-adjunto, Fernando Roriz, sendo que o primeiro "afirmou (...) que não quis defender-se (...) pois isso teria que ser feito noutro lugar."

VII- MINUDÊNCIAS QUE NÃO AGRADAVAM A QUEM QUER QUE FOSSE

Além disso, outras situações agudizaram uma relação que não tinha como ser recuperada.

Assim, "a sua falta de espírito de organização ia ao ponto de deixar instruções ao seu adjunto em guardanapos de papel, aquando da sua ausência ao treino da selecção."

Mais, "a sua distracção era tal que no jogo efectuado no Barreiro, mandou aquecer um jogador para entrar, quando já tinha efectuado as duas substituições regulamentares."

No capítulo disciplinar, o Vitória acusava o treinador de nada fazer para a equipa assumir um comportamento desta índole. Assim, "no ano transacto a equipa do Vitória foi a última neste capítulo e embora a neste princípio de época fosse feito um apelo, no sentido de tal não acontecer, a verdade é que não sendo os últimos, somos os penúltimos."

Depois de muitos associados terem tomado a palavra, chegou o momento que haveria de estar na história vitoriana. "João Coelho apresentou depois uma proposta à mesa no sentido de que um possível regresso de M. Wilson ao Vitória só pudesse ser decidido em Assembleia Geral.", que seria aprovada sem qualquer voto contra. Ficava definido que Mário Wilson só poderia voltar a Guimarães, com a concordância dos associados... o que jamais haveria de suceder!


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