0 - Geralmente escrevo pouco sobre mim... mas não ficaria bem sem este escrito! No fundo, destinado a eternizar uma semana inesquecível, louca e cheia de fé. Assim, irão encontrar um texto diferente, pessoal e cheio de sensações e de sentimentos... não levem a mal por isso! Provavelmente, nem deveria colocá-lo aqui, mas nada a fazer...
I - Ainda não tinha escrito nada sobre Leiria. As emoções (finalmente!) começam a estabilizar e no fundo fica a certeza que conseguimos algo de grandioso, de uma forma épica, com a certeza que daqui a 100 anos esta semana ainda será lembrada e nomes como Charles, N'Doye ou Samu ainda serão lembrados como hoje dizemos os nomes de alguns jogadores que vemos nas fotografias gastas da década de 20 do século passado.
II - Mais do que isso, uma satisfação pessoal. O livro do centenário que, apesar de mediar o período entre 1922 e 2022, quanto a títulos já está desactualizado... e foi só apresentado em Setembro passado. Espero que quem avançar na aventura da escrita dos 125 anos tenha muitos episódios como este para narrar.... é isso que faz um clube grande.
III - Foram dois jogos loucos. De colocar os nervos em franja. No primeiro estiveram, apenas, os crentes e que conseguiram organizar a agenda para estarem numa Terça-feira à noite. Assim, a viagem com os meus queridos amigos Orlando Coutinho, o homem da fé no êxito desde o primeiro segundo, e Paulo Silva, além do prazer das boas conversas que sempre somos capazes de manter, um confronto de forças: aguentaria o Vitória o embate com o Sporting ou soçobraria. Independentemente das dúvidas, a certeza (inabalável!) do Orlando que iamos ganhar e trazer a Taça deu algum conforto... homem de fé e da igreja!
IV - Porém, o jogo foi tudo menos fácil. Sofrido. Com o Sporting a adiantar-se no marcador e Charles a fazer milagre atrás de milagre para manter a distância alcançável. Os nervos a apoderarem-se. E, até, nos últimos minutos, o optimista Orlando (a partir de agora, para nós é Zandinga, seguidor fiel do Bruxo de Fafe) parecia resignar-se ao sussurrar "está-nos a faltar tempo.." Mas, se o Zandinga soçobrava, a boa feitiçaria africana não! E N'Doye haveria de fazer desencadear a loucura e a certeza que havia uma luzinha vitoriana em Leiria... isto depois do nosso adivinho ter alvitrado que o senegalês iria entrar e dar a volta ao jogo.
V - Importava, agora, marcar presença no jogo decisivo, que todos, confessadamente ou não, sonhavam que fosse com o Braga. Seria! E, além de nós e dos vitorianos presentes naquela fria noite de 06 de Janeiro de 2026, estariam muitos mais. Por isso, a corrida aos bilhetes foi uma loucura. Quase uma corrida de 100 metros e onde consegui tirar um bilhete para uma miúda que não fora à meia final por causa da escola, mas que tinha de lhe cumprir a promessa de a levar a uma final do Vitória...ainda que não sendo no Jamor. Pena foi, não termos conseguido bilhete para o nosso, também, companheiro de viagem Mário Rôxo na nossa bancada... apesar de termos depois conseguido que fosse para outro, certamente, todos nós gostaríamos de o ter connosco no que aí viria.
VI - Lá nos fizemos a Leiria. Com mais esperança do que no jogo anterior e com o Zandinga ao volante a dizer que "vamos ganhar, esta é nossa, mas vamos sofrer...e muito"! Poça, a partir de agora, tudo o que fizer, antes pergunto-lhe como vai correr. É que o homem não falha uma e, ainda, para mais, à chegada à Leiria colocou uma música profética: "o que tem de ser tem de ser e a ser que seja agora..."
VII - Depois de uma viagem em que o divertimento maior foi ligar a água dos para-brisas a certos carros que ultrapassávamos e que tinham cachecóis de cores diferentes à vista, lá se chegou a Leiria. Carro estacionado, bifana no bucho e rumo à bancada, completamente cheia. Cânticos. Crença. E a confiança inabalável do vidente de serviço, quiçá, arte aprendida com mestres de outros tempos...
VIII - E, nem quando o adversário se adiantou no marcador essa fé foi abalada... apesar do sofrimento sentia-se que podia acontecer. Tinha de ser possível, ainda que fosse difícil. E isso era-nos transmitido por quem nunca tinha deixado de acreditar! E como lhe dizia "felizes daqueles que acreditam, que deles será o Reino dos Céus."
IX - E não é que tinha razão? O Vitória empataria e chegaria ao segundo golo graças a N'Doye. Novamente a previsão acertada: ainda vamos ter de sofrer muito.
Porém, a partir desse momento, foi olhar para o relógio de segundo em segundo. Trincar e roer o pouco das unhas. Esperar que o Vitória aguentasse. Indignar-nos quando foram dados nove minutos de descontos. Exultar a cada parada milagrosa do Super Charles, que, naquela altura, já merecera o epíteto de "Rei Charles", ainda que eu brincasse a dizer que o "Ray Charles" era cego e aquele via e parava tudo.
X - Até que, quando toda a gente assobiava para Hélder Malheiro dar por finda a partida, aconteceu aquilo... o momento que nos gelou! Verdade seja dita que na bancada ninguém percebeu se, como e porque razão João Mendes fez grande penalidade. Quem via o lance em telemóveis dizia estar com dúvidas. E, aí, nem o nosso Zandinga parecia ter fé. Seria penalty e, sim... acho que todos nós rezamos ao santo protector seja ele quem seja! Lembramo-nos dos vitorianos no além que poderiam iluminar Charles ou desviar aquela bola. Porém, confesso... vi o lance sentado, quase como que a assumir a impotência de poder evitar o que viesse a acontecer. Mais do que tudo, pareceram-me infindáveis os segundos que mediaram entre o apito do árbitro e o remate final...
XI - Depois dele.. bem... não sei bem o que dizer! A previsão do sofrimento estava confirmada, do êxito quase! Abraçamo-nos num cacho humano sem sequer saber quem era. Lembro-me ter dito à Joana que "esta era dela", já que não tinha ido ao Jamor em 2013 e juntamo-nos ao coro de assobios para que a partida findasse! Até que o "assobio" mais esperado chegou... tínhamos ganho!
XII - A partir daí seria a festa. No estádio. No meeting point onde tivemos de repor os índices glicémicos com alguma bebida e a abraçar amigos, conhecidos e desconhecidos...e rumar a Guimarães para a festa, que, como todas festas seria bonita. Nem a chuva impediu que o fosse, nem a espera pelo autocarro seria motivo para a debandada da enorme multidão que lotou a praça. O Vitória haveria de chegar, ser recebido em apoteose e viverem-se momentos arrepiantes de comunhão entre jogadores e a equipa. Tão arrepiantes que o Mitrovic até entregou a taça para as mãos de alguns adeptos, para ficar lívido ao pensar que podiam fugir com ela. Mas, naquela noite, jamais isso iria acontecer!
XIII - A festa era vitoriana, todos sem excepção seriam vitoriados e, provavelmente, na manhã de Domingo muitos crentes terão faltado à eucaristia dominical por culpa da noite insone vivida. Mas valeu a pena...
Quanto a nós, segue-se o Porto e o Orlando já garantiu que o Vitória ganhará... esperemos que continue com a sua costela de Zandinga...
XIV - VIVA O VITÓRIA, SEMPRE...
