Quando Marinho Peres faleceu em Setembro de 2023, Paulo Autuori diria ao Record que " é um choque enorme, uma tristeza profunda. Estou sem palavras, pois tudo o que sou no futebol devo a ele."
Uma declaração de absoluta gratidão numa relação que os vitorianos lembrarão da inesquecível temporada de 1986/87 e que muitos procuravam deslindar da seguinte forma: o Marinho com o seu ar bonacheirão é o condutor e inspirador da equipa no balneário, enquanto o Paulo, com os seus conhecimentos e sagacidade táctica, é o encarregado de colocar o conjunto a actuar como inatacável e fulgurante harmónio, capaz de deixar de pernas para o ar qualquer adversário.
Porém, esta relação como o próprio Autuori confessou em entrevista ao jornal do Vitória de 03 de Setembro de 1986, começou mais cedo. Na verdade, em 1980, quando Marinho no final de uma carreira de futebolista que o levara a actuar no escrete no Campeonato Mundial de 1974 ou no Barcelona de Cruyff ingressou no América do Rio de Janeiro, onde Autuori, muito jovem, mas já estudioso do futebol, trabalhava como adjunto de António Lopes, um dos mais conceituados técnicos do país.
Como o próprio reconheceu na referida entrevista, "o Marinho era jogador do América e eu trabalhava lá. Houve afinidade em termos de ideias sobre o futebol, criou-se uma amizade muito sólida entre os dois e como há uma conjugação perfeita cá estamos os dois juntos no Vitória...". Ainda assim referia que "cada um tem a sua especialidade...", no fundo a confirmar as teses que os vitorianos iam avançando para o extraordinário funcionamento dos dois homens como dupla que se juntou pela primeira vez no comando de uma equipa no São Bento de Sorocaba. Todavia, em 1982, Marinho não resistiria ao chamamento da Arábia Saudita, abandonando o amigo... a quem haveria de chamar para o acompanhar na aventura europeia, no Vitória.
Como referia "viemos para dar porque temos a nossa experiência brasileira que em termos técnicos é mais avançada. Para receber, porque como pessoas inteligentes, estamos abertos a novas situações. A vida é uma escola em que se está sempre a aprender." Mas, acima de tudo, "o objectivo principal é formar uma uma equipa que acima de tudo pratique bom futebol. As oportunidades de ganhar os jogos são maiores e os primeiros lugares virão normalmente..." e como tinha razão Paulo Autuori na antecâmara de um ano que viria a ser inolvidável!

